Sunday, September 07, 2008

Muitos

Vai sair de mim então
Os muitos que são o que sou?
Vai sumir com a verdade
Trancar-se sem grade
Apenas a serenidade
Que muitos dizem que sou?
Vai sobretudo tentar
Ser sóbrio, não ser só e sem sentido
Ser servido da natureza imprópria
Que muitos se apropriam tão bem
Eu não a quero, mas se a tenho?
Vai sair de mim então?
Os muitos que são o que sou.
Eu acho que arranco
Mas não retiro
Não é célula ruim o que sinto
Mas virou metástase
É fase de empecilho
Muitos tantos pela metade
Correndo frouxo sem direção vou
Desconhecendo-me em água corrente
Até que o muito leve à exaustão
Muitos mesmo que são
Soou como o que sou
Exatamente.


Kate Polladsky

Saturday, September 06, 2008

Acho que me adapto a qualquer tipo de amor seu.
Do amor sábio de sentar num banco, ao amor instintivo de encostar na parede.
Do amor de saldos nulos ao de derrubar muros.
Acho que me adaptei a ser do amor, ainda que não seja sua.
Mas seja crua essa vontade de te ter.
Até que me esquente o suficiente para comer a carne mole do meu coração
Aliás...
Adaptar-se não.
Acho que é deixar-se ser.


KP
17/07/87

Às sete ela dormia em oito.
Desde os sete, seta nenhuma a orientava.
“Oi, tô pouco me importando” com os teus anos.
“Sou do ano de julho”, eu juro.
Sentia-se sempre centrada nas beiras.
E beirava o centro de tudo por isso.
Sete, não era de Setembro.
Era dos dias da semana e era de quem amava.
Era ímpar e era boba.
Mas não dava bobeira tão fácil, com os outros números.
Somava mesmo. E difícil era quem a dividisse.
Como um dezessete.
Como dizem as clavas em oitavas.
E os cânceres de oitenta e sete.



KP



[... Para o chocolate dos dias de caos].
As idéias não batem
As mãos não se encaixam
As bocas não são caras
Nem se entregam
A tentativa não deu em nada
As mágoas são nenhuma
Às possibilidades
Dou a trégua
Eu não te amo, em suma.


Kate Polladsky
E por favor, não se pare.
Continue-me.
Não separe, me duvide.
Divida-me em seres pares.
Ou me apare em um pires
Peça-me bem pura
Meça-me perenemente
Em amperes.
Impeça.
E por favor, não me conte.
Algo assim tão...
Não me conte!
Em partes por milhão.




Kate Polladsky
Contudo

Tenho a impressão que me sopras o vento que me faz ventania.
E que me atordoa a poeira nos olhos, me substitui a vista.
Tenho a ferida de quem venceu um dragão, sem espada, nem escudo.
Sem tudo de todo sentimento esdrúxulo, apenas a esquisitice de ser.
Contudo...
Tenho a intensidade da intenção, e a meninice da invenção, que acabou de nascer.
O que me apressa, me apessoa dos freios, cada vez mais insanos. Cada vez mais gastos.
Cada vez mais gestos, e menos palavras na sua presença.
Uma observação desorientada, de tocaia. Pairo meus cílios na tua longitude.
Se é virtude, não sei. Volta e meia morro na praia. Tentando adoçar o teu mar.
E sinto o gosto insosso da minha maré, o tempero que é o tempo todo você.
Tenho uns sonhos infrutíferos, cujas sementes nem plantei.
Adiantei apenas as folhas, pra sombrear tuas maçãs,
Enquanto me deliciava com o gosto de terra.
Coisas simples que me facilitas. Seguir sorrateiro com o amor, ou sua diminuição.
Devolvendo o prejuízo que me dá tirar de mim o coração.
Doar-lhe tudo. Do ar, doar-se em nada.
Apenas a matéria compensada do meu ser completo
Com tudo.



Kate Polladsky

Friday, September 05, 2008

Fotografia

Não conhece o fato, e se desconfia... Fato.
Não recorre ao ato, e se distancia. Fato
Não amortece a vida, e se de morte vivia... Fato.
Não ofuscava a vista, e se ainda via... Fato.
Não faltava nada, de fato. Só revelar a fotografia.

Kate Polladsky
Trejeitos

De que jeito vai?
De que jeito é?
De que jeito gosta?
De que jeito quer?
De jeito maneira pode.
Mas dá-se um jeito, né?



Kate Polladsky
KP
I must be part of the parted
Disturbed, departed
Deported back home
Devided.
Do not wish that to anyone
I must be a plan of the practical
Pratically hysterical
In this silent me.



KP

Thursday, September 04, 2008

Queria mesmo era o abraço

E preencher-se de si

Com um pouco de outro eu

Como se fosse energia

Como se transferisse sem ferir

E ultrapassasse qualquer entendimento

Queria mesmo era o momento

E queria o mesmo momento para qualquer ser

Como se fosse um sentimento

Mas sem ser

Como se estivesse claro

Mas se confundisse

E isso a irritasse

Ainda bem

Que quer seja o que achasse

Beberia do conteúdo

E fecharia o frasco

Não a tocariam de outro jeito

Só queria mesmo

O abraço...

Kate Polladsky

Wednesday, September 03, 2008

Diz respeito a você
Do seu respeito por mim
Dos meios e dos fins
Que usa pra me desconcertar
E me desconcentrar no tempo
Descanse bem
E quando acordar
Não me desmoralize
Deslize-me entre as frestas
Aonde passo
E onde posso ficar
Fica difícil dizer
Mas não digo, se agora isso
Diz respeito a você.

KP

Tuesday, September 02, 2008

Tenho muitas idéias pra comer.
Mas é você que digere todas elas.
Confundi a minha fome com a sua fome
Até que conheci a sua dieta




KP

I

Não espere nada de mim.
Se eu demorar a te amar, você espera?
Disse que está esperando.
O que esperar era?

II

É como se eu tivesse chegado
Um sentimento se achega e se acha
Me faz pensar, acho que cheguei.
Mas entre um dia e outro
Já estou de saída pra outro lugar,
A minha casa eu já achei
Meu lar achei que tivesse achado
É como se eu estivesse fora
E como se eu tivesse chegado

Kate Polladsky

Sei que vou morrer cedo
Talvez não dentro do mundo, mas dentro de você.
Sabia disso?
Sei que não vou agonizar. Vou organizar-me no canto de trás
Vou cantar para que durma em paz
Vai mesmo é adormecer de mim.
Sei que vou voltar em susto, em surto, em sonho.
Mas meu rapaz, não volto atrás.
Melhor é a morte de dentro...

Onde duro mais.



KP
Capilares

O que me prende a ti são os olhos, olhares, e fechaduras.
Nunca as mãos, que me agarram a força e me afiam as garras.
O que me liberta de ti são suas formas e maneiras sem moldes
Sem cortes, nem acabamentos. Sem que se acabem, ou caiam bem.
O que me debruça sobre o corpo são os mais de um coração que não batem por mim
Que somente sentem, sentem-se só e me procuram.
Sentam no banco dos réus, mas julga-me decentemente o amor, faz favor.
O que me confessa as culpas são mil bocas que não conheço, mas já as beijei antes.
Bem antes que falassem besteiras. Deveria ensurdecer-me da vontade de ouvir
E fazer apenas o que me cabe, é aonde me cabem os lábios; sabe.
Facilmente me guisam a carne e o impacto carnal quase me leva.
Assim de leve, e depois em fúria branda.
É tudo que me prende a ti. Fugir às regras e ao tempo insólito.
Não tenho solitude, tenho um despeito sólido
Porque não sou a preferida, sou a proferida palavra no vento
Quem se passa por brisa. Perceba-me como ventania
De passagem por seus cabelos, aonde finco minhas raízes
E viro capilar no teu peito
Me prendo a ti.





Kate Polladsky

Monday, September 01, 2008

Escolhi ficar e continuar a sua ida.
Se você soubesse como adoro despedidas...
Daria tudo por um adeus pálido
Um adeus gélido
A um deus cálido
Que não te deixasse fugir assim...
Que te derrubasse do céu
E pecasse um amor por mim.


Kate Polladsky
Passas

Não sei se quero que me toque
Que me troque por outras
Não sei se minha sinfonia soa de acordo
Se eu vento num sopro
E se você se arrepia
Não sei de tantas coisas, quem diria
Diria que você tem mesmo muita sorte em me ter
Sem que me proteja desse você
Que me arranha e me acanha
Me representa as faces e facas nas entranhas
Medo de te perder. Só isso
E só risco o fósforo, para me aquecer no esquecimento
Sem sacrifício.
Meu amanhã nunca nasce de parto normal
Tua avenida nunca cruza a minha rua principal
Mas isso não desfaz a nossa natureza de caminhos
Que parecem indiferentes, diferentes ninhos
Onde vou pousar
A minha mão, a minha calma
Repousar e recompor a alma
Você sabe mesmo ser o estilhaço
Que me fere e ao mesmo tempo me segura o sangue
Não sei se quero esse toque de morte
Na nossa ida
Você sabe ser forte quando sou eu a ferida?
Vai me entregar de bandeja sem que me derrube as taças?
Vai me deixar de canto, num ensaio de traças?
Ou vai me traçar em ser que sou, meu e teu
Destroçar o ser que fui antes que chegasse
Arrombando-me portas, janelas, vidraças
Dessa vida aqui, não sei
Tu ficas, ou passas?




Kate Polladsky
E talvez por isso, você tenha melhorado a sua fé.
Tenha feito novos amigos, em velhos amigos.
Tenha refeito as pazes consigo.
E talvez por isso cessaram-se as perguntas e os questionamentos
A tranqüilidade de viver sem precisar de porquês
Talvez você não tenha ganhado tanto com isso, quanto poderia perder sem.
Mas quem te suportaria melhor do que você, hein?


Kate Polladsky
Não contém glúten

E comeu o chocolate como se visse biscoito
Quiçá o é.
Quis beber todo o chocolate
O cacau foi buscar no pé.
Quis ter sede da água
De uma quase sede eu.
E quase soube, quase coube.
O entender nos cubos.
Enquadra-se bem?
E olhou com curiosidade como se enxergasse
Se buscasse acharia. Se fosse atrás, teria.
Riu, como se achasse graça.
Como se não fosse.
Apontou como se indicasse
Como se dissesse, eu tenho razão.
E adoçou o dia alheio, como quem não parte.
Como se contivesse... E comeu o chocolate.


Kate Polladsky




[... Para o chocolate dos dias de caos].