Sunday, August 31, 2008

Vamos os dois, periculosos e distraídos?
Sem causas, recusas, reclusas e coisas que nem sei dizer
Vimos que nem sempre temos mais que nós
Mais que sós, desatamos mais
Mas que ainda assim, paciência, somos nós os nós
E sós nem paciência faz jus
À companhia degradante de uma estrada vazia
Devolva-me os passos e os pés descalços
Os calos e os papéis
Todos que representei pra você
Todos que risquei
E tudo mais que eu rasguei
Vamos os dois devolvendo um ao outro?
Demonstrando quem realmente somos?
Somos dois?
De vez em quando ao menos?
Mais que isso eu não peço
Eu não posso, então que passe em branco
Vamos não me faça colorir os rabiscos
Que são só motivos
A dádiva da intenção
Eu queria mesmo era ir
Os dois, permanentes e gritantes
No silêncio meu e teu
Atentos ao perigo que é
Sermos apenas eu ou você.



Kate Polladsky
Menta

Me enche o copo?
Me bebe o corpo?
Me joga ao topo?
Me tenta agora?
Me tantas todas
Menta e amora
Mente na hora?
Me despedaça?
Me transpassa?
Me liga as pontas?
Me mescla as taras?
Me lambe os cantos?
Me canta mesmo?
Meticulosamente
Me adoece?
Me adoça?
Me encanta?
Me continua?
Me renovamente?
Me leva?
Me lava?
Me seja?
Me suja?
Me cospe o alívio?
Me livra do vício?
Me escorrega?
Me agarra?
Me espanta?
Me espalha?
Me mostra?
Me mima?
Me solta?
Me atrasa?
Me olha?
Me ama?
Me tranca?
Me trava?
Me abre?
Me revela?
Me veste?
Me sopra?
Me arde?
Tanto assim?



Kate Polladsky
Queres?

O quê?
Queres ou não?
Quero
Hmmmm ele quer
Isso é ruim?
É aceitavel!
Afinal tu queres!
E se eu não quisesse? Seria mais aceitável?
Aí seria renegável, não?
Renegar também não é aceitável?
Se você não aceita, você renega.Ou não?
Afinal de contas... se eu não quisesse, seria ou não mais aceitável?
Seria compreensível...
Mas seria moralmente mais adequado?
Eu não pensei em nada moralístico. Acha que eu deveria?
Não há como não pensar. Os preceitos morais fazem parte de você, estão encrustados na sua personalidade. São inerentes a sua forma de pensar, e de enxergar o mundo.
Pare de me assustar homem! Eu e a minha papa de aveia estamos moralmente desconstituídos, mas tu queres, ou não?



KP feat. FC

Tuesday, August 26, 2008

Quis ser heterogênea
Mas foi tola e foi mistura
Quis ser uma só
Mas foi babilônica
E foi pedaço também
Quis ser si mesma
Mas mesmo assim se foi
Não foi nada assim, demais
Que foi?
Quis ser adivinhada
Mas foi adivinha
Quis ser a comédia
Mas foi divina
E foi a dúvida também
Quis ser a fruta proibida
Mas foi madura
E se mordendo de vontade
Não caiu em si
Não caiu do pé
Permitiu-se permanecer
Em aura pendurada do que é
Nunca mais que isso
Ou além do que quis
Injusto?
Veríssimo.


Kate Polladsky

Sunday, August 24, 2008

De lua

Mudo muito de sonho
Mudo muito de objetivo
Mas no fim eu só quero ser feliz
E eu só sou feliz mudando de felicidade
Sou só e isso também é felicidade, só isso.
Flutuar é bom
Mas daqui a pouco vou arrumar alguém pra me distrair
Que fale muito, tudo muito sem sentido
Que viaje, na mente e na estrada
Que me leve junto e me lave a alma
Eu não sou de ninguém que me queira
Sou de quem se apossa e não me diz
Mudo muito de amor
Mudo mais ainda de dor
Assim mesmo, mudo de cicatriz
Canto muito, muito baixo pro meu gosto
Gosto de tudo um pouco
Mas gosto muito
Geralmente o que gosto é muito simples
Mas adoro complicar, pra ficar mais bonito
Pra durar a intriga e a provocação
Pra ter medo, de ter complicado tanto que perdi
Mas mudar de perda é ótimo
Se ganha muito com isso
Porque quando ganho, sou tão feliz
Que sinto que nunca perdi
Mudo de exagero, de loucura
Que no fim tinha tudo de normal
Tem gente que não arrisca na loucura
Prefere julgar a normalidade alheia
Eu prefiro respeitar o mar de cada um
E olhar como ele molha a areia
O meu mar se dá por completo
Se deixa absorver aos poucos
Sem que vire poça nos grãos
Sem que espume na beira
Mudo muito de praia
Mas não mudo a minha natureza
Mudo de liberdade
Mudo de ares
Mas não mudo de asas
Não peço a ninguém que mude por mim
Mas por mim eu até que mudo por alguém
Se não valer a pena eu mudo de alguém
Ah, eu mudo.
Se me der na telha, mudo tudo
Que mudei até agora
Sou de lua. E tá tudo na mesma.


KP

Wednesday, August 20, 2008

Está tudo em pratos limpos
Não fui eu quem lambeu os pratos
Estou só enfatizando
Não fui eu quem distorceu os fatos
Estamos todos livres
Onde está a maior perda?
Desse legado de merda
Me faz lembrar um coisa
Me fez pôr uma pedra
Agora,
Vou começar minha construção
Com as cinzas de tudo
Com tudo a que me presto
E todo o resto
Do meu coração


KP

Monday, August 18, 2008

ECLIPSE

Se eu puder apenas escolher te observar
Enquanto teu sono cobre o cansaço
O lençol cobre o teu rosto
Tua respiração cobre o quarto
E da noite emane o gosto
De cada coisa que tu sonhas
Se eu puder apenas colorir tua pele com a minha
Teu cabelo com o meu
E adormecer no mesmo eclipse
Sobrepor-se em corpo, pernas e asas.
Desfazer-se em morte viva
Reviver a noite em brasas
Como se ninguém visse
Como se ninguém pudesse
Ser um instante do seu
Apenas eu.
Apenas eu.



Kate Polladsky
200º

Ducentésimo em diante
Você estará ausente
Não sei que bem fará
Ou para quem será este presente
Mas nesse instante
Não trará nada que eu já não tenha.
Nada que eu já não tenha deixado ir
Das milhares de vezes que mencionei-te
Poucas vezes criei significado
Não é para se ficar descontente
Deixar-te hei calado
Inócuo e vazio
Já há muito tempo distante
Tal como houve primeiro amor
Chegará a centésima dor
Nada mais por um fio
Que despenque tudo de antes
Nenhuma gota amarga
Irá me criar enchente
Ducentésimo em diante
Eu rio


Kate Polladsky

Friday, August 15, 2008

A CRIAÇÃO

Não faço nada de grandioso
Apenas descrio
Apenas escrevo
Esse mesmo nada que escraviza
Liberta
Tal como seria se criasse
E ainda assim se o fizesse
Não seria algo grandioso
Apenas uma discrição da descriação
Ou talvez uma descriação mal criada
A criação



Kate Polladsky

Thursday, August 14, 2008

Ser tua cura de tarja preta
Que nem fazendo esforço tu controlas
Ser teu dicionário de palavras chulas
Quando tua raiva não tiver saída
Ser tua pobreza, tua recaída
Quem te faz morrer de pedir esmolas
Serei quem sou e ainda!
Um ser sem sobras



Kate Polladsky
MESMO

E se eu me reinvento?
Enquanto retrocedo
Ou retorço um progresso
Pouco me importa
O que eu penso.
Pensar é uma derrota
Sem o intento.
Vou criando mais de mim
Desfazendo-me assim.
Não há nada que eu possa fazer
E quer saber, eu não lamento.
Sou muda o tempo todo
Só mudo o que vou dizendo.
Aproveito pra me perder
Um alvoroço pra me prender
A qualquer coisa comum
A qualquer custo
A qualquer um
Nada muito qualquer
Não são pra todos
O melhor rótulo de rum
O mesmo gosto forte tem todos
O mesmo mal-estar
Mas o mesmo de tudo é um fardo
Que já estou farta de carregar.


Kate Polladsky




Tuesday, August 12, 2008













Amisterdana

Todas querem ser
Todas as que não são
Pode até ser
Um lugar tão seu
Amisterdana
Consagrada
E profana
O teu feito
Teu efeito

Em nua análise
Catalisando-a
Sana
Femea
Atenta
Insana
E como cualqueruma
Humana
Todas querem ter
Para o mix ter dono
Híbrida de si
Todas as que nem tão
Amisterdanas



Kate Polladsky
CORRE DOR

Fim do corredor
Perdi-me no rim
Do amor, da dor
Estranhei a distância
Estreitou-se a ânsia
De te ter perto de mim
No início era claro
Hoje é comum
O que era raro
E a lâmpada se apagou
No fio do corrimão
O feixe de luz então
Virou silhueta
Uma penumbra
De tempos em tempos
Na ampulheta
Um vislumbre
E todo esse sentimento
Sem cor
Eu percebi quando me vi
Olhando-te no fim
Do corredor




Kate Polladsky
Juro que queria tocar as suas células cantantes
Expressivas e estridentes
Anexar à minha identidade perdida uma nova linhagem de valores e favores
De mim para o que sou e como me sinto quando você se revela
Juro que nas ruas os outros seriam outra história
E sei que jogariam suas ideologias e julgamentos sem leveza
Como cartas na mesa de pôquer, como pedras sem saberem o porquê.
Eu não ligo para todas essas pobrezas de alma e essa geração de mal dizer.
Juro que abraçaria sua natureza e me doaria para as dores do mundo
Do seu mundo, do seu muro de liberdade.
A minha vida vibra na confusão dos meus problemas E vibra-se de você.
Identifica-se e se aloja como bala no peito
Como se fosse tarde demais
E pudesse subornar o depois, com toda ética sentimentalista e carnal possível.
Juro que se por meio dos meus sentidos pudesse te materializar
Não teria qualquer martírio o amor recém descoberto
Que já está juramentado de fim.
Sem que eu pudesse fazer qualquer coisa
Exceto quebrar os juramentos que fiz dentro de mim.


Kate Polladsky

Monday, August 11, 2008

O meu medo desdiz. Isto é fato. É nada tão construtivo, quanto parece ser o risco sobre o papel. Nada me cala, nem o meu medo. Porém, como já disse, de que me vale tal empenho, interrogo. Interfiro. Inter-fico. Confusa.
Um triz muda muita coisa. Muda tudo. É sempre bom estar por um triz, quando um calendário é só um calendário. Quando um dia, depois o outro, depois o seguinte; nenhuns deles se tornam lendários. Tornam-se falsos cognatos de uma vida plena. Os dias.
Meu medo é excelente confidente. É um vácuo da gaveta, de madeira nobre. Sem trancas, apenas discreta. Medo esse que tem uma fome voraz. Digere tudo o que nele jogo, insatisfeitas suas enzimas ardem por mais.
O medo quando adormece o corpo estranha. De tão incorporado, já não é corpo estranho. Mas corpo entranho. O medo.
Cutuca-me os calafrios na pele, a platéia emerge. E é o medo então que surge como patrão frio e autoritário, delega o que quer, se senta ao alto e observa. De espírito mecanístico, não sei se se classifica como erro, como agravo, ou como agrado.

Medo que é medo, teme perder sua natureza. Teme por essa vertigem.
Por qualquer coisa que lhe provoque coragem, de perder-se da origem.



Kate Polladsky

Thursday, August 07, 2008

SACRIFÍCIO

Um pingo do poço
Viu-me tropeçar
E os dedos dos ossos
Não puderam segurar
Meu esboço
Que caía
E ela ria
Ela ria
Diante do riacho
Onde
Marchavam peixes
Tão traíras
Riscando a película
Da água
Em preto fosco
Era macio
Mas eu morria
E não fazia
Nenhum esforço
Despia-me
Da pelagem viva
Que me continha
Sem descompasso
Nem alvoroço
Embaraçava
Minhas pernas bambas
Nos contornos daquele dia
Salivava pelas beiras
Ao dizer que já sabia
Gotejava em muitas réplicas:
E ela ria
Ela ria
Escorria por meu pescoço
A vida em movimento brusco
Despejava-me ainda moço
Ao sublimar outro maço
E no subliminar precipício
O fim que tanto busco
Eis aqui meu sacrifício
Juntar-me hei
A um pingo no poço




Kate Polladsky
CONTEXTO

Não sou aquela coisa inocente,
Dependente e perfeita
Que morre
Sou aquela coisa displicente,
Decadente,
Que se espreita
E morde


Kate Polladsky

Wednesday, August 06, 2008

Despedida

Melhor que eu me despeça
Que eu me afaste e me aqueça
Melhor só te observar
E te levar na cabeça
Depois para que volte e te ofereça
Alguma coisa nova, tênue
Alguma coisa que não tenhas
Melhor que eu não te peça
Para que tu me esqueças
Pois sei que assim farias
Na falta do que fazer
Dirias
Que não foi a intenção
Mas a falta de alguém
Por perto
E se perder na confusão dos dias
Deu certo
Eu pensava
Que se quebrassem meu coração
Montarias peça por peça
Mas de certo, em pedaços
Não há amor que impeça
A liberdade de te perder
E para que não tenha que ver
Tudo isso de perto
É melhor que eu me despeça


Kate Polladsky
Você que implica
Me explica
Por que fica procurando me encontrar?
Só pra me apresentar à dor
Se situa
Não sei se é tua
Esta flor de Martinica
Nem sei se isso
Ao amor indica
Você é única
Então por que
Arranhar o violão
Com os dedos sujos de tinta
Pára e canta essa canção
Aquele que eu gravei na fita
E até hoje finge que não gosta
Ela é só uma amostra
De quando a vida imita o mágico
E agente senta
Esperando que algo desapareça
Sei que se não fosse mágica
Seria trágico
Então, não me deixe ir
Pra esperança renascer
Eu quero ver você rir
Até que passe o rio
Pelos seus olhos
Pra que eu possa enxugar a margem
Ver quando aquele brilho surge
E se confunde com a miragem
Você que implica
Não sabe que graça teu rosto fica
Quando erra na maquiagem
E assim se irrita
Espalhando todo o batom na cara
Então pára
Pára de dizer bobagem...


Kate Polladsky
As vezes eu me deixo
Sentir o gosto da tua ausência
Me permito a saudade
E o amor primeiro
Pode até ser verdade
Que eu não te escute
Mas veja,
O quanto o silêncio discute
Sem bocas, nem brigas
Resolve tudo, dá todo o sentido
E depois denuncia-nos
Como marginais
Rasgando a noite
De toda a sociedade
Descobrindo um ao outro
E cobrindo um ao outro
No frio, no fio de algodão
As vezes eu me deixo
Simplesmente porque
De você não abro mão
E você diz que não te amo
Pode até ser verdade
Pois sinto que te vivo
E a saudade de antes
Deve vir de minha morte
Passou-me na cara
Que não sei viver
E me pergunto
A que se deve essa autoridade
Mandando-me ao inferno
Deformando meus sentimentos
Desmerecendo minha existência
E você diz que não te amo
Que não sinto saudades
Ou...
Sou eu que não sei viver?
Pode até ser verdade...



Kate Polladsky