Friday, October 24, 2008

Ainda tenho esperança.
Mas não espera, não se desespera.
Respira e vai.
Em parte cansa, e inventa causas pra existir.
Ainda tenho muito que pensar.
E na possibilidade de não ser só pensamento.
Alimenta meu corpo frio.
E quase esquenta com um fio de amanhã.
Não sei o que me dói, se não machuca.
Nem tem a intenção.
Devo ser assim, indiferente à dor.
Organismo vivo pintado de azulejo.
Reflete o mundo em que vivo.
É no seu fundo que me vejo.
Meu maior medo.
É que isso não seja triste.
Que seja opcional.
Minha maior angústia.
É a consciência do que me sou.
E de aceitar, de se ter.
E não saber levar.
Deixar que me levem.
Que me escolham.
E que me achem antes.
De eu me encontrar.
Ainda tenho esperança.
De conquistar alguma certeza.
E poder ser flexível, com firmeza.
Que o meu agora, não se estenda.
Além do momento que é.
Para que eu não precise sentir o peso.
Do que poderia ser, do que teria sido.
Sem ser.
E assim sendo, não me respondo.
Porque não me pergunto.
Tenho a coragem da dúvida.
E pagarei as dívidas que fizer.
Com a esperança do ainda.
Do que minha esperança quer.
Decidirá o meu caminho.
Quando eu já não me importar.
Não importa, que passos der.
Que a minha verdade não se renda.
Nem entre pela porta em que sai.
Que o ar da minha esperança
Não se prenda.
Respira.
E vai.



Kate Polladsky
O que é que você tem, que me deita tão longe, e me sonha os pensamentos amanhecidos de ontem? Que mal você traz, que faz tão bem, sem toque; mas cura as doenças que o mundo traz? Eu esqueço que te gosto, quando lembro que não gosto de gostar tanto assim. Isso tudo que tu tens, é algo meu que se perdeu, ou algo meu que tomou pra cuidar? O que é que você tem que trafega meu chão e leva meus passos pra casa? Então sento pra te escrever sobre a vida que me vive. E a vida que não tive como viver. O que é que você tem, que me suporta ou me tolera, sei que não há muito o quê entender. O meu vazio você preenche, com uma leveza, talvez, volátil demais. Não permanece nunca e não me deixa. Às vezes pesa e cai. Fica esperando que eu te suspenda com palavras de abraço. Com um quê de sempre amei, e não te magoarei jamais. O que é que você tem que sua voz tem sempre sotaque de saudade, e me envergonha pela metade, não me cala, e me fala tudo como se olhasse nos olhos. Mora em tantos interiores queira, e daqui de dentro de mim, não sai. O que é que você tem, estudada de tantas certezas, que não me tira as dúvidas de nós? Não me esclarece de mim e do que sinto. Se não sinto mais. Se senti a mais. A menos que queira saber, no momento sinto paz por você. Não sinto amor. Que forças tenho pra lutar por isso, que sempre me enfraquece? E quando morre, me escurece. O que você tem, me ilumina e me faz querer enxergar ao redor. Não pode ser amor, o que tem. Tem que ser algo menos significante, e que por isso não me consome tanto. Apenas me convive. E assim consigo viver, levar comigo tudo o que tenho de você. E o que você tem comigo. O que é que você tem amor, além de tudo isso?



Kate Polladsky

Thursday, October 23, 2008

Conhecer o vazio que me inteira.
O vazio da convivência, o vazio da ausência.
Conhecer o que perdi, como se me conhecesse.
E não me perdesse. Nem me desse conta.
Como se me antecedesse, e evitasse.
Conhecer o desconhecido.
Sem que soe familiar, sem que eu desconfie.
E o medo me tome nos braços.
Medo do que se desprende, e dos laços.
Como vou poder me continuar, se me desfaço?
E disfarço muito bem? A ponto de eu acreditar
Que sou tudo isso que conheço.
Mas que sinceramente, nunca tomei conhecimento.
Conhecer minha sinceridade talvez, seja um começo.
KP
Já não sei...
Quem será que me segue?
Sem sossego nem sacrifício.
Somente o quente vício de você.
Já não hei, com que coragem te vivi?
Perdi teu beijo que tanto quis, ou irei.
Hoje sei que sou nada pra ti.
Amanhã o quê serei?
Já não sei...
Se me sobram pedaços.
Se me restam passos.
Passarei despercebida assim?
Por mim...
Pode ser que termine aqui, haveria um fim no enfim?
Filtrando-te do amor, que mora dentro de mim.
Já não sei... Sempre separo o possível do absurdo
Possivelmente apagarei as luzes
Pra ver a luz que incide
Se é você que chega, se as chaves abrem
Se os teus espaços de fato me cabem
Bem, você foi o impraticável. E, portanto...
O que há demais nos elogios práticos
Que fugiram da minha boca?
Já não sei, se queria saber...
Minha curiosidade resiste
E perde pro que mais persiste ao viver
Agora, desiste...
Ao mesmo tempo em que quebra sua lei
Se contradiz, se desfaz e se perdura
Se for verdade, já não sei...
Menti pela saudade, pela passagem mal marcada.
Da dor de querer, um quê de ti na dor, que não me dói.
Só mesmo enfeita a dó, que você tem por mim.
E se dá um pouquinho, pra mim que já se deu.
Já não sei... Quantas vezes errei e me arrependi.
Mas não te disse ou irei. Sei que o teu sol a pino
Percebeu as sombras que deixei
Não são caminhos com cascalhos.
Às vezes é você, a maior pista do que sou.
Se tudo o que vou, vou por você.
Não vou me perguntar sobre tudo
Ainda assim duvidará do meu talvez
Minha sabedoria é um tanto burra.
Pra você saber... Que já não sei.



Kate Polaldsky

Wednesday, October 22, 2008

Quem te beija distante, em frente os olhos de cada pensamento que traço sozinha, com a ajuda da distração. Quem tem que se apresentar como quem te gosta um pouco a mais do que gostar. Gasta de si o gosto que tem o somente que é, sem quem sem quer. E não quer se mostrar; apenas rodear-me de indagações, ornamentando de angústia aqui dentro. Quem se preocupa e se dói, sem nenhum chão que apare, sem os tais braços que ampare, que seja.
Quem surpreende o óbvio, tão mal feito que quase jaz. E te perturba quase nada do que me diz, mas perturba demais. Quem se multiplica, faz quase tudo, por quem quase tudo é. Tudo parece valer a pena. Apenas, quem toca a pele, sem nem mesmo tocá-la, mas já se materializa, tão perto fica a distância entre os dedos dos sentimentos limpos de amor, que já até empoeiram de tanto esperar. Ora, quem sou eu pra amar...
KATE POLLADSKY
TO TELL YOU THE TRUTH, IT BOTHERS ME.
THAT YOU CREATED A HARD WAY TO LOVE ME
AND AN EASY WAY TO LOSE ME.
IT BOTHERS ME THAT YOU HAVEN´T REALISED THE DIFFERENCE BETWEEN WHAT YOU THINK IT´S RIGHT AND WHAT I THINK IT´S WRONG.
AND IT BOTHERS ME BECAUSE I RESPECT MYSELF, YOU DON´T.
EVEN WHEN I LIKE YOUR KINDNESS, AND YOUR INTRIGUING LOOKS
I WONDER IF I DONE SOMETHING TO WIN IT, AND IF IT MEANS IT´S GOOD.
TO TELL YOU THE TRUTH, ONE OF US HAS BEEN LYING TO ITSELF
IN A MILLION T POINTS THAT TOGETHER MAY DRAW A WHOLE ENDING.
I NO LONGER FEEL SO GIVEN. I MAY BE THIS NUMB PERSON, FEELING NOTHING AT ALL.
I´M PERHAPS JUST A THINKER. THINKING TOO MUCH OF EVERYTHING.
WILLING TO THINK LESS AND LESS OF YOU.
TO TELL YOU THE TRUTH, I´M NOT TRULLY A TELLER
I´D RATHER JUST DO.
BUT SOMETHING´S KEEPING ME FROM MOVING
ALTHOUGH I´M ACTING LIKE A FOOL.
IT BOTHERS ME AND STILL…
I´M TRYING TO FIX WHAT CANNOT BE BETTER
BETTER IF I DIDN´T BOTHER
I´M WAITING FOR WHATEVER.

KP



Tuesday, October 21, 2008

Queria eu saber como te tocar, como me trocar por ti, um minuto somente.
Queria eu adivinhar seus pensamentos meus, por mim. E se talvez eu tivesse a chance de saber o que eu nem queria tanto entender, já até me arrependo... Mas certas coisas queria que você soubesse, especialmente as que soubesse sem que eu diga, mas que me dissesse o que pensa. Queria não me desgastar tanto, sem precisão. Precisamente quando você é a tentativa mais óbvia que faço. A mais simples, a menos ganha.
Queria mesmo era saber o que fazer, pra não desfazer nada do que fiz. Que foi um passo certo, que não foi certeza alguma. Mas me conforta por algum motivo. Queria saber qual é a minha porta de entrada, já que espero na saída o tempo todo. E o medo de não conseguir ir embora, ficar apenas eu e os espaços vazios, os meus de dentro. E o de fora. Queria que fosse verdade as mentiras que eu passei a acreditar porque desisti aos poucos do quanto te queria. E se me pareceu errado essa verdade, é porque na verdade, ela que não me queria. Não quero mais que a vontade. É a minha grade, de todos os dias. E parece que me aquece, só de pensar. Queria eu saber como não querer, e que isso fosse despreocupante. Que seja, por fim. Que não seja um fim, mas me faria feliz que fosse ao menos um instante.




Kate Polladsky
Now that I have nothing else to lose.
Losing time with you doesn’t seem so right.
May I leave part of us hanging by itself and another part of it behind?
Just because it’s senseless and silent, to continue with this mess.
Here inside I wish I could stay, and take a chance to be the entire me with you.
Now it´s just the shadow from yesterday. But it always were by nature.
I try to see with your eyes and I really try to light up my view.
But I’d rather have it all blind, than live forever a blurry deal.
You can just have my skin, can provocate me, but never touch me.
You can change my places, make my laces, but no longer move me.
You can this powerful thing of being my love, but can’t this powerful right of a lover.
I left a mark, but does it stay as an old thing, useless and meaningless anyways?
Do I listen to words that doesn’t listen to me anymore?
Hey, you´re my certain step over the days, but you’re one more day in my life, no more.
And now! I must choose between losing myself, and losing you. Differently, but almost like losing the same. Separately, but almost like losing one body.
That doesn’t match, and doesn’t sweat the same kind of love.
Have I got something else to lose? Except for the loss of the nothing, we are? And this lie that wannabe true? Some other story that I wanna tell for myself, without a thing to prove. Stopping is not a mistake. It is just that now; I have nothing else to lose.





KP

Sunday, October 19, 2008

Serei eu, que me sou. E serei eu que me dou. Que escolham o quê de mim querem. Sei ser fingidora, sei ser perfeita, só não sei ser quem sou. Não sei de mais nada. Já não sabia quando era alguma coisa. E sem querer, me canso, me nego, me recuso a conhecer apenas as costas de quem persigo. Prontifico-me a dar a cara às tapas, até que quebre essa louça com a qual me vestem e já nem querem tocar. Trocam-me pelo imprestável, pelo impuro, pelo imprudente? Escolhe a mim como traidora, como trouxa, como heroína que mente? Se assim ganho mais, ganho amor, ganho atenção e ganho a não-admiração que todos querem ter pra si, que desejam e que embora odeiem, possuem com um sofrer quase tão gratificante quanto se tivessem o alívio, o conforto, o refugio de alguém que é bom demais pra que os mereça. Então, serei eu um desmerecer-se de si, pelos outros. Pelo merecer de querer ter o que mais se quer? Não sei a quê me dou o direito, pra que não fique com nada. Apenas o todo perfeito que sou, e que já não me serve, quando mais preciso.
KP

Wednesday, October 15, 2008

Você não se termina em mim? Nos dias em que te transito os dedos, sei que recomeço.
Pousei na película da tua pele. E adormeci entre as vontades, e uma verdade só.
Você não percebeu? Não sou eu quem te percebe enfim? Foi sim, eu quem te tocou por dentro e te preencheu os entres, sem tirar nada, sem que se tirasse de si. Pode continuar como este ser inacabado, que não se termina. Nem mesmo em mim.




Kate Polladsky

Tuesday, October 07, 2008

Tem um pouco seu no todo eu. Tem um todo seu no pouco meu. Vou te dando tantos tantos e nem te aviso. Gosto tanto que é melhor esconder. Já nem cabe aonde. Quer esteja onde quer que esteja e eu não te veja, e não veja tudo o que é. Interessa? É até suficiente não saber. Ou descubro, ou acho. E supõe-se que é melhor assim. Não ser pensante, ser apenas sensato. Sem laços constantes, só a constância dos fatos. Só o afeto do acesso fácil. Do dificil dever de gostar, por obrigação nenhuma, desordenado. Apenas por ordem do coração. Tem um pouco a mais do que deveria ter. Tem vezes que não se mede bem o que dizer. E não se diz o desmedido. Pra não ferir nem rasgar sentimento. Como corte de folha de papel. Quase não se vê, mas incomoda toda sua insignificância. Num instante se cria com o quê preencher o todo. Tudo isso sem molde, só a matéria-prima. Um querer simples e bruto. Sem sala de espera. Nem expectativa de nascer ou morrer. Fica lá tudo isso. Incluso no todo. No teu e no meu pouco. Cada um tem o seu. Às vezes é apenas um muito-pouco. Mas preencheu.
Kate Polladsky

Monday, October 06, 2008

I don’t know what love is. But I love you, just like this. And not just sometimes. I don’t know what it feels like to have you, but did you ever feel like mine? I don’t know how to move, how to explain, I don’t know what to say or how to look at you. But I know enough to keep you inside like my only living part. I don’t know how to please, how to avoid, how to stop acting weird. Every little thing you say leaves a mark. And I don’t know how to finish any feeling for you when I start. Just like nearly everything, I should try. But I give you all of me, and step behind. As I’m afraid that you’ll really take it, or never mind. I don’t know how to stay with you without willing to hide how much you got from me, I just throw a smile. Do you know the way I feel when you’re by my side? That I could stand forever close to you but I get on the verge of running away, on the inside? I give you too many excuses not to lose my mind. Too many halves, and I trace so fine a way to lose you, right? I don’t know what you want from me, when you don’t expect anything in fact. I don’t know what goes through your life, through your thoughts, through your heart. I don’t know which way to follow, which feeling suits you and I. Without hurting you with my unspoken passion, and too many words you’ll find. Without even hurting myself all the time. Often you confuse me, and it happens that you cause me damage with how you put out your words. I must be too silly, too stupid and thanks god there is you to tell me to stop. Thing is I don’t know how to deal with you, when it bothers me so deeply that I miss you badly, and I can’t disguise myself, no matter how hard I try to let it go, hopeful that it could help me, that it might be easier. Rather than not to hold you for more than just a while, to kiss you for more than just a threat, to hear you speak of your lovers from time to time. It is just fair that I don’t know what love is, when I don’t know how to love. But I don’t know how to name it all. I wonder what it means when you say “I like you”, is it more or less than we have to offer, without expecting a thing from each other?







KP

Wednesday, October 01, 2008

Vai morrer de queda, quando cair em si.
Passa, pensa. Passa. Nem fica assim. Nem assim fica.
Mas se me quiser, tenha.
E se não, um senão. Tem quem? Tem não.
Não quem me conheça. Ainda. Mas vai conhecer.
E vou apresentar a você.
Pra que você mude de idéia, e eu mude de conhecido.
Não adianta, de um jeito ou de outro eu vou morrer.
Da tua queda sobre mim.
Sobre queda: continuo caindo aos teus pés.
Morri.
Kate Polladsky
É uma porção sua que me assusta. Que me invade, não pede licença, entra e sai. Entre o que é meu, entre eu. Acontece que penso pouco, ou quase nada, quando te sinto perto. Longe demais, na verdade. É um pedaço seu que quero. Que me sustenta. Quase não largo teu corpo. Agarro tudo só em pensamento. A idéia disso me traz a você e me leva embora sem ti. Não sei até onde chego. Mas sei que chego saindo. Um impulso involuntário que me trai. Queria muito saber o que me decide. Sambo entre o ter e o não ter. Tenho pressa e tenho a paciência de quase não querer. Mas quero, não sei o quanto. Só sei quando eu quero. Não me agrada, não me desanima, me distrai, me constrói e determina o que vou fazer. Que, aliás, sequer a noção do quê. Não sei se te trago quando me resta apenas a mim e um cigarro. Não sei se te levo, na manha; não sei se te indago, se te pergunto respostas. Mas sei, que esse susto todo que me abraça de você, até esquenta. Até me cobre de curiosidade, até me descobre, coisas que nem julgava ter, nem julgava ser, nem julgava julgar-me. É uma porção sua em meu território. Nem te cruzo a linha, mas me deixo passar.


KP

Tuesday, September 30, 2008

Já nem sabe em que nível está.
Se está ao nível.
Se há de se nivelar.
Já que pergunta, por que pergunta em que nível está?
Pode ser que esteja desnivelado agora.
Ou ao nível do mar?
Nesse nível se navega... Ou se afunda.
Nem sabe a que nível chegou.
Nem se chegará.
Já sabe de todos os níveis.
Eu nem sei mais...
Vou me perguntar.


[...Para você que me carrega no sereno, e me pergunta respostas]


KP
Agora acho que se extingue. Deixou-se levar, lavar-se demais. Talvez agora um enxágüe por dentro. E se acalme, se vicie no secar do vento, com outros ares. Quer respirar, não? Transpirar tudo isso foi febre. A aqueceu por um instante, tanto. A queimou por uma eternidade, tanto. O que sobrará será que serão cinzas? Depois que molhar tudo embora. Não há o que regar.Nada brota. Não lhe deve continuidade. Arrancar? É um tirar de vida, um tirar de linha, desalinhar. Irá puxar um fio assim, e sem que nem percebam vai se desfazer feito novelo. Sempre tão sólido, o gelo amornado, derreter-se-à. Se não se extingue agora, uma hora irá? Acho que não é obrigação manter isso tudo. Mas já pesa muito em toda sua leveza. Que diferença faria continuar? Faria diferença? Carregar, descarregar. Prezado inquilino, não é por nada. É porque não há lugar para ela. Abandono de lar. Que só abriga um dentro, mas não quer estar lá.

KP


Monday, September 29, 2008

Já tinha chegado de lugar nenhum. De um sentimento perdido perpetuando perda. Ser inanimado, amor. Já nem gosto tanto de você, já nem te esqueço, já morro de saudade, já morro cansada de ir e vir entre seres. Um ser eu, um ser tu. Tudo eu invento, nada crio? Nada nasce em mim de raízes. Embora seja eu o lírio dos teus olhos. Embora seja você a borboleta que eu escolhi como liberdade pra ter. Te tenho? Te solto? Até vejo beleza em tudo. Mas sofro. É um tanto decadente que tenho tudo e não tenho nada. Tenho uma dúvida certa. A minha certeza sempre duvida. Não sei se de mim, ou de você. É algo que vem de dentro. Aflora e murcha. Mas não morre. Às vezes acorda, como de um sonho ruim. Às vezes dorme, como que de tédio. Não sei bem, se espero demais, se espero ter mais. Há dias em que sou indiferente à espera. Acho tudo tão fugaz. Mas são esperas diferentes, são dias iguais. Acabei voltando à minha natureza por você. Já tinha chegado a acreditar, que não me esperaria nascer lírio novamente, nem que borboletas voassem pra mim. Quase me preenche ou me engana com caberes, e já nem acho tão vazio assim.

Kate Polladsky

Sunday, September 28, 2008

Pense que, só não te amo mais porque me falta nascer de novo. Não te suponho não te indago não te questiono. Porque não tenho dúvidas. Não te amanheço porque não te anoiteço. Sei que não te perco um só instante, um só dia. Para mim é o bastante, você me basta eu diria. Pense que só não te digo mais porque gastaria palavras. Elas não teriam mais o mesmo gosto, e eu sei que você gosta assim. Amor calado e gritante, subentendido para sub-amantes. Não preciso de mais. Nem de nada seu e nem me dar ou tirar de mim. Já tenho o seu todo que me completa, o seu tudo que me deu pra eu guardar. Tenho minha vida que te nasce, teu sol nascente na minha vida
Pense que, só não te amo mais do que amar.
Kate Polladsky

Friday, September 26, 2008


Não vou deixar de lado um quê de quem quer.
Não sabe o que quer, mais o que há de ser?
Que você queira um pouco; divide comigo um pedaço.
Um recorte do bolo quisto, ou um traço.
Eu quero muito, sei que te quero muito bem.
Sei o bem que me faz você, mas não sei
Se te querer também.
Eu quero acima de tudo isso que não queria pensar.
Penso o dia todo e penso que você também queira
Não vou deixar de lado, lá bem longe meu querer
Tudo o que eu quero é que o que eu quero possa ser.
Virar um querer tido, não um quer tenha quer não.
E que isso faça mal, não se pode ter tudo o que se quer
Queria ver a sua cara, quando descobrisse o meu quiçá
Que agora virou certeza, eu quero pôr à mesa o amor
Pra você querer me amar.
KP
Talvez demore pra você existir.
Eu não vou insistir. Não vou insistir.
Talvez você saiba que cabe bem em mim.
Ainda há espaço pra você ficar.
Ainda há tempo pra você se decidir.
Um dia é só um dia, mas é um dia só.
É sempre assim, só você diria como é ser assim.
Talvez eu invente saudade
É verdade, não vou desistir.
Ás vezes caminho pela metade
E a outra metade encaminho pra ti.
Com razão, eu às vezes esqueço
Você anda tão mudada
Anda de mudança por nada
Não me deu seu novo endereço
Talvez eu não consiga dormir
Sonho tudo de olhos abertos
Não quero perder o mundo estranho
Quero conhecer mais de perto
Quem saberá o que ganho
Amanhã nada é certo.
Talvez você não chegue logo
Logo vou atrás de você
Se eu te achar me aviso cedo
Cedo ou tarde posso te perder
Talvez demore pra você insistir
Mas eu peço a quem possa
Que me ponha nas mãos algo teu
E um tal amor que nos mereça
Amor de muito antes de existir.

Kate Polladsky

E por que não morri na mesma hora? Acho que morri, só percebo agora. Morro quando chega morro quando sai. Quando eu vejo morro, morro quando me cega a silhueta. Quando é finalmente, depois de esperar tanto, fujo. Quase estou ali. Confesso que ali sou só a vontade de você. Melhor dizer que sou toda a esperança, de que todo o pensamento que junto se perca num só lugar. Sou toda desistência desse eu que não controlo. Quer-me e me conserta? Explica-me sobre isso que sou quando você está ou não está. Desfez-se o eu - padrão. Toda essa estranheza oscilante é simplesmente porque não me abraça um minuto pra sempre, em silêncio em um acordo de pele. Ao menos um desejo incontrolável de apenas sentir, e segurar forte, quase nunca mais largar.

KP

Thursday, September 25, 2008

I´ll give you space.
So you can breath, it´s a new pace.
I´ll give you place, so you can move closer to me.
Or can you walk away; are you gone from me, today?
I´ll give you lips. So you can do whatever
Turn into a kiss, I´d give you.
I won´t make you stay.
When it is you who makes your own way
And the steps out through my door.
I´ll laugh at you, when you give me the weirdest smile.
And I´ll cry with you, if that tear you drop is mine.
I´ll die for you. If for you I´m more than just a life.
And I´ll tell the truth, when your truth is just a lie.
I´ll give you money. If that can pay your gains.
It is not my money that will afford your waste.
I´ll give you space.
So you can test your wings
I´ll give you humble and ordinary things.
But I won´t give you more or less
Of the freedom it is to be me, when I´m with you.
I´ll give you a spot in your freedom
It is what you still can be, when you´re with me.
I´ll give you love, it is space to hate me.
I´ll give you love, it is place to make me homeless.
I´ll give you love, it is the price you can´t pay for.
I´ll give you love, it is all those things I gave before.




Kate Polladsky
Eu sei exatamente nos braços de quem, terminarei os meus dias.
Os dias de outono tristes, dias de chuva frios, dias de todos os dias.
Eu sei que não serei eu até lá, serei muitas que serei até lá.
E até lá, eu espero que me espere. Que me ame como ama hoje.
Ama tudo o que couber no vazio, e preenche tudo sem precisar tocar.
Sentir basta. E essa intuição de destinos cruzados tem um ventre só.
Espero que descanse bem nos braços de não sei quem.
Que acredite em felicidade e prove dela nos beijos delas.
Mas que hajam braços abertos pra quando eu chegar, e ficar.
Permanecer eu no embrulho, o teu presente que me dou.
Sabes exatamente nos braços de quem, terminará de ler isso.
Sabia disso? Eu também.

KP
[...Para mim mesma: geneticamente você.]

Wednesday, September 24, 2008

Passeia assim na minha mente, como se fosse jardim.
Como se pudesse florir ainda mais.
E se permitisse a tudo, exceto permitir-se o jamais.
Perambula na minha vista, como se perdesse o foco.
E nada se borra, nada aborrece meus olhos.
Vai embora, e nem sabe que eu acompanho.
Mas eu me largo sim, me dou toda.
E nem sabe que me tem.Tem vontade?
Tem um pouco de você pra me ter?
Te seguro a mão e você nem sente, nem me leva.
Te espero mais minutos do que imagina.
Mais minutos do que me dá, no seu dia.
Planta em mim uma mudinha, como se pudesse falar.
Como se não fosse crescer e dar frutos.
Fica em mim como quem se esquecesse de sair.
Como se fosse confortável morar em mim, acha que é?
Vai ficando e me mudando de lugar.
Como se em algum lugar eu estivesse
E uma hora dessas fosse me expulsar.
Magoa a minha mágoa como se aliviasse
Como se percebesse o que acontece.
E nunca mais fosse me machucar.
Aí fala as coisas com tanta graça,
Quase tudo que eu queria ouvir.
E não me pede nada do que eu queria dar
Eu não tenho mais nada pra dar
Mas me dou toda, tá.




KP

Saiu correndo. Foi ver o sol.
Sentir o sal, adoçar tudo de si.
Não foi? Sei muito bem.
Em que oceano tem ido se banhar.
E com que areia constrói seus castelos.
Sei que a areia fina e leve também serve
E que sabe pular ondas, sempre te deu sorte.
Nesse teu corre-corre alguma coisa tem.
Anda muito flutuante, sabe.
Ainda bem que é um bem-estar, né?
Só não sei bem até quando vai durar essa maré.

Kate Polladsky

Meu deus, e como ama.
Como duvida, como cansa quebrar a cara.
Queira ou não queira, possa ou não possa.
Se empoça fundo, cada dorzinha de sentimento que gela.
Alguém há de chegar, vai condensar e fazer chover tudo em alegria.
E vai dançar na chuva, e vai cantar na chuva. Todo dia.
Meu deus, e como espera.
Sem assentos para o cansaço. Apenas espera que sim.
Que tudo aconteça como imagina, na cabeça dela nada fica.
Fica lá fingindo estadia. Sabe ser sem estar.
Se concentra em nada. Só o centro de tudo.
Nada mais em que pensar. E pensa? Tanto, que pesa muito.
Quase pega, sente nas mãos. Se conseguisse, abraçaria para sempre.
E nunca mais dormiria só. Quase não haveria sol, tanto que choveria sua alegria.
Haveria ouro maior no final do arco-íris? Sol e chuva, sol e chuva. Tudo se ilumina agora, hein menina?
Mas como seria? Será que será?
E o seu coração bate tanto assim por quem? Batem á sua porta de madrugada?
A fecham sempre que abre? Empenou a fechadura? Quem sabe.
Bate palmas pra si mesma, menina. Você merece mais do que um teatro.
Merece todo o palco, e as cortinas se abrindo. Cor vermelho sangue. Esse que alimenta todo esse amor por quem te queira.
Meu deus, quem quer saber como ama?
De todo jeito ama. É o jeito, ama.
E como. É quase um quero-quero.
Não te querem menina? Eu quero.




Kate Polladsky
Certas coisas é melhor que se deixe o dito pelo não dito. Para que não morram, ainda que não possam viver também. Ou simplesmente, para que não doam. E não se doem demais. Ademais melhor que se grite o que sente, ou que deixe sentir compreendido e descoberto, com todo o direito do mundo ao silencio. É uma escolha calada, não falar, mas deixar dito. Quem sabe é porque também sente, e sabe interpretar o silencio. Quem não sabe, não há de se importar em entender. Melhor deixar o dito pelo não dito do que desdizer. Desfazer o estrago, recuperar a perda. Melhor se perder.




Kate Polladsky

Tuesday, September 23, 2008

Por qual brecha sempre passa o pedaço seu que invade o todo tudo de cada um que toca?
E se talvez já fosse porta, essa tal brecha? E se o que toca não seja um pedaço, mas uma música toda? ...Canta pra mim?



[... Para o chocolate dos dias de caos].

Kate Polladsky

Monday, September 22, 2008

Reticências

Te guardo, num meio termo.
Assim, protegido do tudo ao meio.
Que se parte, e não volta.
Te penso, sem qualquer racionalidade.
Livre de qualquer impureza dessas.
Que se possa arrepender de ter pensado.
Te cuido, como posso e como me deixas.
Mas te cuido como sou: com todo o cuidado de ser.
Te sou, ainda em mudanças.
Onde começo e termino você não é caminho.
Mas segue. Eu quase consigo caminhar por essa ponte.
Te aguardo. Ali, logo depois do segundo ponto: (...)



Kate Polladsky

Sunday, September 21, 2008

NEM TUDO

Nem tudo o que eu falo é o que penso. Nem tudo o que eu quero é o que peço.
Nem tudo o que entende é o que é. Nem tudo o que invade é o que sou por dentro.
Nem tudo o que toma era meu por certo. Nem tudo o que tenho é o que sou.
Nem tudo o que me resta, sobra. Nem tudo o que eu minto, mente.
Nem tudo o que eu amo merece. Nem tudo o que eu lembro é o que vivi.
Nem tudo o que eu sonho é para mim. Nem tudo o que eu guardo, fica.
Nem tudo o que permanece, dura. Nem tudo o que adormece, dorme.
Nem tudo o que eu ofereço, tenho. Nem tudo é tudo isso.
Nem tudo - é tudo isso. Isso é tudo.


KATE POLLADSKY

Wednesday, September 17, 2008

Dá-me colo?
Ou palavras?
Não é conforto algum quando calas.
Silencia-me então com a boca
E me acomoda nos braços
Entre os baques que a vida dá
Dá-me uma esmola da tua presença
Ainda que do teu vestígio de olhar
Ainda que passando, só por passar.
Dá-me colo?
Coloca-me em meu lugar
Mas não me traia com indiferença
Que arrogância é ignorar
Se não me dá colo
Ao menos diga, o que pode me dar?



KP
E sigo por outro caminho
Porque esse caminho não é meu
Mas se num instante penso em ti,
Nos outros instantes te vivo
E mortalizo todo o sentimento
Que de morto não tem nada
E só segue, desmoralizado.
Descontínuo e denotado de você
Mas se digo por outro caminho
Nenhum outro destino há de ser
Não ponho cabeçalho nem rodapé
Penduro apenas o essencial
Entre um espaço e outro. O que me der.
Mas sigo por outro caminho de mãos vazias
Porque esse caminho me segue de mãos atadas
E atada de tudo, o que posso fazer?
Que não haja caminho então
Desfaça todos o que vão
Me desviar de você
Pode fazer isso?
Sede o meu caminho que há de ser?



Kate Polladsky
Ainda que não te dê a porta
Não te nego as brechas.
[...] Invade e fim.*



Kate Polladsky

*Djavan
Antes que vá embora
Me deixa teu suor ou tua saliva?
Nas minhas mãos, no meu rosto
Me renova a película e os pêlos?
Dos meus olhos, meus cabelos
Antes que vá embora
Adivinha a cor do meu sentimento?
Esse medo do outro passo que vai passando
Rápido e lento, rápido e lento
Antes, vá embora
Que eu chego doendo
Antes de mais ninguém
E antes de mais nada
Eu te espero sempre
Embora não vá
Dizer o que quero.
Mas quero sempre.


KP
Prefere a deixa, ou o deixar?
Prefere que eu te deixe ou
O que eu deixo não vai bastar?
Prefere que eu te baste?
Prefiro deixar que tu prefiras
Pois pra mim sim, basta.



KP
MUITO

É quase sempre muito, o que sinto.
É quase sinto muito.
Não sei o que de muito há nisso
Se é sempre quase.
Não o que eu sinto. Este não é sempre.
E tampouco é quase.
É sempre muito quase, sinto.



KP

Tuesday, September 16, 2008

Vitrine.

Percebi como me olha
Me olha como se quisesse levar da vitrine o coração
Como se o preço da tua curiosidade
Morasse no seu objeto de estudo e na minha exposição
O que observou de novo na minha transparência?
Algo que se negue? Algo que se leve?
Mas deixa de elegância e de passear os olhos
Quebra logo toda essa vitrine
Rouba esse músculo bobo que tanto bate e tanto cala
Com um caco de mim talha seu nome
E batiza teu roubo de amor.



Kate Polladsky

Monday, September 15, 2008

Por que se move tanto?
Tanto foge ou tanto cerca
Porque não se emenda?
É tonta, tantas vezes tenta
Tanta coisa pra fazer
Pelo menos tenta
Seu todo tudo se entortando
Como é que se agüenta?
Anda magoando um tolo?
Talhando os tocos do teu tipo
Tudo é troca
E tranca
Do lado de fora o teu tido?
Não tem nada tão maldito
Que tirar-se do tido
Tipo, trocar pelo que não tem
Mas só tem olhos para o mesmo teto
Tanta lente não adianta
Ta tudo indo muito lento
Talvez por isso se mova tanto

É tonta... todo o tempo.


Kate Polladsky
Passagem

A entrada da saída vai ser a parte mais difícil
Mas quem mandou ensaiar tanto?
E foi passando assim tão lento
Como quem não quer deixar acabar
Mas se ensaia tanto a saída
Por que não entra de cabeça?
E se ela passar será que se acaba?
O amor que entrou assim de fininho
Por todas as brechas?


Kate Polladsky

Saturday, September 13, 2008

Vestido de Costa Nua

Ficar entre os calos dos seus dedos de arranhar-céus
Caminhar trôpego e indecente entre teus móveis
Pés, braços e mãos
Cair junto a noite, nos teus cabelos de colchão
Subir teus andares, abrir suas portas
Atravessar tua ponte de corpo
E tuas partes onde tudo continua
Desatar as atas, descansar os atos
Sem que permita o esfriar da rua
Amarrotar os lados e permanecer o cheiro
No teu vestido de costa nua


KP

Thursday, September 11, 2008

MAL ESTAR

Se eu não estivesse aqui
Seria tua, e seria livre.
Seria teu lar, teu lugar de descanso
Seria mais fácil amar.
Se eu não estivesse aqui
Seria mais arejado
Tudo estaria aberto
Minhas, verdades, minhas mentiras
Meu coração e tudo mais que há
Menos a porta de saída.
Não quero você lá
Se eu não estivesse aqui
Tudo seria mais perto
Também seria irreal
Ser assim distante maltrata
Tudo o que é possível não faz falta
Pra quem não pode voar
Se eu não estivesse aqui, eu juro
Que seria a tua última escolha
Pro resto da vida
O resto das folhas
Pros teus versos
Pros teus sonhos gritarem
Sem que precise ouvir
O que os outros falarem
Por mim, eu ficaria
Mas essa vida aqui
É como se eu não dissesse
Nada do que acabei de dizer
Então é melhor que te escreva tudo
O que sinto e o que sou
Como se eu não estivesse aqui
Mas estou.


KP

E com um pensamento gestante de você...
Não te nasce.
Nem te aborta.




Kate Polladsky

Tuesday, September 09, 2008

Sei que prefiro os dias que danço
Com ou sem passos certos
Só ou somente um pouco
Ainda que bata nos cantos
Prefiro os dias que danço
A desenfrear-me na música
Que canto para tocar você
Que toco para cantar você
E desencantar um público de sóis poentes
De poetas e lentes
Que não querem me ver dançante.



KP

Troca-me os lados e isso que tu vês, ou enxerga ou percebe, não tem perseverança de ser. O lado certo é todo aquele antes de você. Não sou códigos ou senhas, e sempre teve todos os meus traços na mão. Leu-os quando quis e quando não. Mas não posso impor que leia corretamente. Leia como quiser, e me veja como quiser. Queria eu saber a sua maneira. O que foi que eu fiz? Não são os teus passos que estão sempre de saída. Por mais ausente que isso seja às vezes volta, e me agride aqui dentro, acredite. Pior se tivessem ido embora. Ou não sei. Descomplique. Passe e fique. Pacifique.

Agora seu olhar é que foge. Sinto que o castiga; o põe de lado. Como se eu fosse vago, como se quisesse tu cegar-se vagamente de mim. Essa é a parte mais cômica. Se eu conseguisse chorar, choraria. O que importa é que me simplificou imensamente, enquanto te compliquei até os pontos. E agora morro de medo dos tais. Precisaria que fossem contínuos; não finais.

Devo ter errado em alguma coisa. Erros acontecem. Eu aconteço. Mas acontece que ainda não é vantagem te acordar enquanto adormeço. Não saberia que sonho contar e sou capaz de inventar sonhos. Fui capaz de te inventar. Para que me reinventasse, ou entendesse um pouco a minha reinvenção. Então vêm as perguntas. A arcada das perguntas me monta e me amontoam respostas que são tudo, respostas... Não. E são coisas que eu vou abrir, sempre que quiser. Queira sempre, tem direito a isso.

Agradeço a pressão que me fez, sem saber, para que eu voltasse para o mundo mais mortal. Esse que não precisa de conveniência, nem distância. Esse que uma coisa é minha, é sua, do que me pede e do que dou, ainda que não tenha coerência, mas acho que não lhe tenho mais espaço para et coeteras. Assim vou te perder. E se perder-se também é caminho, perdi o suficiente pra encaminhar tudo pro lado contrário ao que deveria. Agora sinto que me achei sem precisar me encontrar em algum lugar, como queria. Foi como tudo começou. Impliquei com o desconhecido, não me conhecia ainda. Nem você, nem eu. Agora que desisti de me encontrar e te perder, qualquer dúvida será bem vinda.

Monday, September 08, 2008

ACHISMO

Não preciso ser o que digo que sou
Sou o que sou. O que você acha disso?
Uma meia verdade não é uma mentira
Não vejo nada de mal nisso.
Mas digo tantas coisas.
Digo que estou quando não estou.
E vou voltando quando na verdade, vou.
Não acho que as coisas terminem por aí
Mas quer achar que acabou?


KP

Sunday, September 07, 2008

Queixo e mãos

Depois não sei mais para onde olhar
Pra tua imponência ou pro teu descanso
Pros movimentos que não alcanço
Mas dá gosto ver passar
Aquilo que se divide
Pares em queixo, em lábios
Pares que parecem nunca desejar
Ficarem a sós com os dedos
Passeio perante e por onde nunca pensei
Sem que parasse por distração
Ou procurasse permanecer
Depois não sei como se conheceram
Como irmãos
Junto então o corpo
Dos meus olhos parênteses
Como se tocassem e morassem
No teu queixo e mãos.



Kate Polladsky
Brincaremos de não-direção
Correremos de tudo
Cairemos confusos no chão
Cada um do seu lado
Olharemos desconfiados
Achando coisas
Perdendo outras
Não quer uma amizade de brinde
Diga-me
Se não sabe brincar, não brinque.


KP
Muitos

Vai sair de mim então
Os muitos que são o que sou?
Vai sumir com a verdade
Trancar-se sem grade
Apenas a serenidade
Que muitos dizem que sou?
Vai sobretudo tentar
Ser sóbrio, não ser só e sem sentido
Ser servido da natureza imprópria
Que muitos se apropriam tão bem
Eu não a quero, mas se a tenho?
Vai sair de mim então?
Os muitos que são o que sou.
Eu acho que arranco
Mas não retiro
Não é célula ruim o que sinto
Mas virou metástase
É fase de empecilho
Muitos tantos pela metade
Correndo frouxo sem direção vou
Desconhecendo-me em água corrente
Até que o muito leve à exaustão
Muitos mesmo que são
Soou como o que sou
Exatamente.


Kate Polladsky

Saturday, September 06, 2008

Acho que me adapto a qualquer tipo de amor seu.
Do amor sábio de sentar num banco, ao amor instintivo de encostar na parede.
Do amor de saldos nulos ao de derrubar muros.
Acho que me adaptei a ser do amor, ainda que não seja sua.
Mas seja crua essa vontade de te ter.
Até que me esquente o suficiente para comer a carne mole do meu coração
Aliás...
Adaptar-se não.
Acho que é deixar-se ser.


KP
17/07/87

Às sete ela dormia em oito.
Desde os sete, seta nenhuma a orientava.
“Oi, tô pouco me importando” com os teus anos.
“Sou do ano de julho”, eu juro.
Sentia-se sempre centrada nas beiras.
E beirava o centro de tudo por isso.
Sete, não era de Setembro.
Era dos dias da semana e era de quem amava.
Era ímpar e era boba.
Mas não dava bobeira tão fácil, com os outros números.
Somava mesmo. E difícil era quem a dividisse.
Como um dezessete.
Como dizem as clavas em oitavas.
E os cânceres de oitenta e sete.



KP



[... Para o chocolate dos dias de caos].
As idéias não batem
As mãos não se encaixam
As bocas não são caras
Nem se entregam
A tentativa não deu em nada
As mágoas são nenhuma
Às possibilidades
Dou a trégua
Eu não te amo, em suma.


Kate Polladsky
E por favor, não se pare.
Continue-me.
Não separe, me duvide.
Divida-me em seres pares.
Ou me apare em um pires
Peça-me bem pura
Meça-me perenemente
Em amperes.
Impeça.
E por favor, não me conte.
Algo assim tão...
Não me conte!
Em partes por milhão.




Kate Polladsky
Contudo

Tenho a impressão que me sopras o vento que me faz ventania.
E que me atordoa a poeira nos olhos, me substitui a vista.
Tenho a ferida de quem venceu um dragão, sem espada, nem escudo.
Sem tudo de todo sentimento esdrúxulo, apenas a esquisitice de ser.
Contudo...
Tenho a intensidade da intenção, e a meninice da invenção, que acabou de nascer.
O que me apressa, me apessoa dos freios, cada vez mais insanos. Cada vez mais gastos.
Cada vez mais gestos, e menos palavras na sua presença.
Uma observação desorientada, de tocaia. Pairo meus cílios na tua longitude.
Se é virtude, não sei. Volta e meia morro na praia. Tentando adoçar o teu mar.
E sinto o gosto insosso da minha maré, o tempero que é o tempo todo você.
Tenho uns sonhos infrutíferos, cujas sementes nem plantei.
Adiantei apenas as folhas, pra sombrear tuas maçãs,
Enquanto me deliciava com o gosto de terra.
Coisas simples que me facilitas. Seguir sorrateiro com o amor, ou sua diminuição.
Devolvendo o prejuízo que me dá tirar de mim o coração.
Doar-lhe tudo. Do ar, doar-se em nada.
Apenas a matéria compensada do meu ser completo
Com tudo.



Kate Polladsky

Friday, September 05, 2008

Fotografia

Não conhece o fato, e se desconfia... Fato.
Não recorre ao ato, e se distancia. Fato
Não amortece a vida, e se de morte vivia... Fato.
Não ofuscava a vista, e se ainda via... Fato.
Não faltava nada, de fato. Só revelar a fotografia.

Kate Polladsky
Trejeitos

De que jeito vai?
De que jeito é?
De que jeito gosta?
De que jeito quer?
De jeito maneira pode.
Mas dá-se um jeito, né?



Kate Polladsky
KP
I must be part of the parted
Disturbed, departed
Deported back home
Devided.
Do not wish that to anyone
I must be a plan of the practical
Pratically hysterical
In this silent me.



KP

Thursday, September 04, 2008

Queria mesmo era o abraço

E preencher-se de si

Com um pouco de outro eu

Como se fosse energia

Como se transferisse sem ferir

E ultrapassasse qualquer entendimento

Queria mesmo era o momento

E queria o mesmo momento para qualquer ser

Como se fosse um sentimento

Mas sem ser

Como se estivesse claro

Mas se confundisse

E isso a irritasse

Ainda bem

Que quer seja o que achasse

Beberia do conteúdo

E fecharia o frasco

Não a tocariam de outro jeito

Só queria mesmo

O abraço...

Kate Polladsky

Wednesday, September 03, 2008

Diz respeito a você
Do seu respeito por mim
Dos meios e dos fins
Que usa pra me desconcertar
E me desconcentrar no tempo
Descanse bem
E quando acordar
Não me desmoralize
Deslize-me entre as frestas
Aonde passo
E onde posso ficar
Fica difícil dizer
Mas não digo, se agora isso
Diz respeito a você.

KP

Tuesday, September 02, 2008

Tenho muitas idéias pra comer.
Mas é você que digere todas elas.
Confundi a minha fome com a sua fome
Até que conheci a sua dieta




KP

I

Não espere nada de mim.
Se eu demorar a te amar, você espera?
Disse que está esperando.
O que esperar era?

II

É como se eu tivesse chegado
Um sentimento se achega e se acha
Me faz pensar, acho que cheguei.
Mas entre um dia e outro
Já estou de saída pra outro lugar,
A minha casa eu já achei
Meu lar achei que tivesse achado
É como se eu estivesse fora
E como se eu tivesse chegado

Kate Polladsky

Sei que vou morrer cedo
Talvez não dentro do mundo, mas dentro de você.
Sabia disso?
Sei que não vou agonizar. Vou organizar-me no canto de trás
Vou cantar para que durma em paz
Vai mesmo é adormecer de mim.
Sei que vou voltar em susto, em surto, em sonho.
Mas meu rapaz, não volto atrás.
Melhor é a morte de dentro...

Onde duro mais.



KP
Capilares

O que me prende a ti são os olhos, olhares, e fechaduras.
Nunca as mãos, que me agarram a força e me afiam as garras.
O que me liberta de ti são suas formas e maneiras sem moldes
Sem cortes, nem acabamentos. Sem que se acabem, ou caiam bem.
O que me debruça sobre o corpo são os mais de um coração que não batem por mim
Que somente sentem, sentem-se só e me procuram.
Sentam no banco dos réus, mas julga-me decentemente o amor, faz favor.
O que me confessa as culpas são mil bocas que não conheço, mas já as beijei antes.
Bem antes que falassem besteiras. Deveria ensurdecer-me da vontade de ouvir
E fazer apenas o que me cabe, é aonde me cabem os lábios; sabe.
Facilmente me guisam a carne e o impacto carnal quase me leva.
Assim de leve, e depois em fúria branda.
É tudo que me prende a ti. Fugir às regras e ao tempo insólito.
Não tenho solitude, tenho um despeito sólido
Porque não sou a preferida, sou a proferida palavra no vento
Quem se passa por brisa. Perceba-me como ventania
De passagem por seus cabelos, aonde finco minhas raízes
E viro capilar no teu peito
Me prendo a ti.





Kate Polladsky

Monday, September 01, 2008

Escolhi ficar e continuar a sua ida.
Se você soubesse como adoro despedidas...
Daria tudo por um adeus pálido
Um adeus gélido
A um deus cálido
Que não te deixasse fugir assim...
Que te derrubasse do céu
E pecasse um amor por mim.


Kate Polladsky
Passas

Não sei se quero que me toque
Que me troque por outras
Não sei se minha sinfonia soa de acordo
Se eu vento num sopro
E se você se arrepia
Não sei de tantas coisas, quem diria
Diria que você tem mesmo muita sorte em me ter
Sem que me proteja desse você
Que me arranha e me acanha
Me representa as faces e facas nas entranhas
Medo de te perder. Só isso
E só risco o fósforo, para me aquecer no esquecimento
Sem sacrifício.
Meu amanhã nunca nasce de parto normal
Tua avenida nunca cruza a minha rua principal
Mas isso não desfaz a nossa natureza de caminhos
Que parecem indiferentes, diferentes ninhos
Onde vou pousar
A minha mão, a minha calma
Repousar e recompor a alma
Você sabe mesmo ser o estilhaço
Que me fere e ao mesmo tempo me segura o sangue
Não sei se quero esse toque de morte
Na nossa ida
Você sabe ser forte quando sou eu a ferida?
Vai me entregar de bandeja sem que me derrube as taças?
Vai me deixar de canto, num ensaio de traças?
Ou vai me traçar em ser que sou, meu e teu
Destroçar o ser que fui antes que chegasse
Arrombando-me portas, janelas, vidraças
Dessa vida aqui, não sei
Tu ficas, ou passas?




Kate Polladsky
E talvez por isso, você tenha melhorado a sua fé.
Tenha feito novos amigos, em velhos amigos.
Tenha refeito as pazes consigo.
E talvez por isso cessaram-se as perguntas e os questionamentos
A tranqüilidade de viver sem precisar de porquês
Talvez você não tenha ganhado tanto com isso, quanto poderia perder sem.
Mas quem te suportaria melhor do que você, hein?


Kate Polladsky
Não contém glúten

E comeu o chocolate como se visse biscoito
Quiçá o é.
Quis beber todo o chocolate
O cacau foi buscar no pé.
Quis ter sede da água
De uma quase sede eu.
E quase soube, quase coube.
O entender nos cubos.
Enquadra-se bem?
E olhou com curiosidade como se enxergasse
Se buscasse acharia. Se fosse atrás, teria.
Riu, como se achasse graça.
Como se não fosse.
Apontou como se indicasse
Como se dissesse, eu tenho razão.
E adoçou o dia alheio, como quem não parte.
Como se contivesse... E comeu o chocolate.


Kate Polladsky




[... Para o chocolate dos dias de caos].

Sunday, August 31, 2008

Vamos os dois, periculosos e distraídos?
Sem causas, recusas, reclusas e coisas que nem sei dizer
Vimos que nem sempre temos mais que nós
Mais que sós, desatamos mais
Mas que ainda assim, paciência, somos nós os nós
E sós nem paciência faz jus
À companhia degradante de uma estrada vazia
Devolva-me os passos e os pés descalços
Os calos e os papéis
Todos que representei pra você
Todos que risquei
E tudo mais que eu rasguei
Vamos os dois devolvendo um ao outro?
Demonstrando quem realmente somos?
Somos dois?
De vez em quando ao menos?
Mais que isso eu não peço
Eu não posso, então que passe em branco
Vamos não me faça colorir os rabiscos
Que são só motivos
A dádiva da intenção
Eu queria mesmo era ir
Os dois, permanentes e gritantes
No silêncio meu e teu
Atentos ao perigo que é
Sermos apenas eu ou você.



Kate Polladsky
Menta

Me enche o copo?
Me bebe o corpo?
Me joga ao topo?
Me tenta agora?
Me tantas todas
Menta e amora
Mente na hora?
Me despedaça?
Me transpassa?
Me liga as pontas?
Me mescla as taras?
Me lambe os cantos?
Me canta mesmo?
Meticulosamente
Me adoece?
Me adoça?
Me encanta?
Me continua?
Me renovamente?
Me leva?
Me lava?
Me seja?
Me suja?
Me cospe o alívio?
Me livra do vício?
Me escorrega?
Me agarra?
Me espanta?
Me espalha?
Me mostra?
Me mima?
Me solta?
Me atrasa?
Me olha?
Me ama?
Me tranca?
Me trava?
Me abre?
Me revela?
Me veste?
Me sopra?
Me arde?
Tanto assim?



Kate Polladsky
Queres?

O quê?
Queres ou não?
Quero
Hmmmm ele quer
Isso é ruim?
É aceitavel!
Afinal tu queres!
E se eu não quisesse? Seria mais aceitável?
Aí seria renegável, não?
Renegar também não é aceitável?
Se você não aceita, você renega.Ou não?
Afinal de contas... se eu não quisesse, seria ou não mais aceitável?
Seria compreensível...
Mas seria moralmente mais adequado?
Eu não pensei em nada moralístico. Acha que eu deveria?
Não há como não pensar. Os preceitos morais fazem parte de você, estão encrustados na sua personalidade. São inerentes a sua forma de pensar, e de enxergar o mundo.
Pare de me assustar homem! Eu e a minha papa de aveia estamos moralmente desconstituídos, mas tu queres, ou não?



KP feat. FC

Tuesday, August 26, 2008

Quis ser heterogênea
Mas foi tola e foi mistura
Quis ser uma só
Mas foi babilônica
E foi pedaço também
Quis ser si mesma
Mas mesmo assim se foi
Não foi nada assim, demais
Que foi?
Quis ser adivinhada
Mas foi adivinha
Quis ser a comédia
Mas foi divina
E foi a dúvida também
Quis ser a fruta proibida
Mas foi madura
E se mordendo de vontade
Não caiu em si
Não caiu do pé
Permitiu-se permanecer
Em aura pendurada do que é
Nunca mais que isso
Ou além do que quis
Injusto?
Veríssimo.


Kate Polladsky

Sunday, August 24, 2008

De lua

Mudo muito de sonho
Mudo muito de objetivo
Mas no fim eu só quero ser feliz
E eu só sou feliz mudando de felicidade
Sou só e isso também é felicidade, só isso.
Flutuar é bom
Mas daqui a pouco vou arrumar alguém pra me distrair
Que fale muito, tudo muito sem sentido
Que viaje, na mente e na estrada
Que me leve junto e me lave a alma
Eu não sou de ninguém que me queira
Sou de quem se apossa e não me diz
Mudo muito de amor
Mudo mais ainda de dor
Assim mesmo, mudo de cicatriz
Canto muito, muito baixo pro meu gosto
Gosto de tudo um pouco
Mas gosto muito
Geralmente o que gosto é muito simples
Mas adoro complicar, pra ficar mais bonito
Pra durar a intriga e a provocação
Pra ter medo, de ter complicado tanto que perdi
Mas mudar de perda é ótimo
Se ganha muito com isso
Porque quando ganho, sou tão feliz
Que sinto que nunca perdi
Mudo de exagero, de loucura
Que no fim tinha tudo de normal
Tem gente que não arrisca na loucura
Prefere julgar a normalidade alheia
Eu prefiro respeitar o mar de cada um
E olhar como ele molha a areia
O meu mar se dá por completo
Se deixa absorver aos poucos
Sem que vire poça nos grãos
Sem que espume na beira
Mudo muito de praia
Mas não mudo a minha natureza
Mudo de liberdade
Mudo de ares
Mas não mudo de asas
Não peço a ninguém que mude por mim
Mas por mim eu até que mudo por alguém
Se não valer a pena eu mudo de alguém
Ah, eu mudo.
Se me der na telha, mudo tudo
Que mudei até agora
Sou de lua. E tá tudo na mesma.


KP

Wednesday, August 20, 2008

Está tudo em pratos limpos
Não fui eu quem lambeu os pratos
Estou só enfatizando
Não fui eu quem distorceu os fatos
Estamos todos livres
Onde está a maior perda?
Desse legado de merda
Me faz lembrar um coisa
Me fez pôr uma pedra
Agora,
Vou começar minha construção
Com as cinzas de tudo
Com tudo a que me presto
E todo o resto
Do meu coração


KP

Monday, August 18, 2008

ECLIPSE

Se eu puder apenas escolher te observar
Enquanto teu sono cobre o cansaço
O lençol cobre o teu rosto
Tua respiração cobre o quarto
E da noite emane o gosto
De cada coisa que tu sonhas
Se eu puder apenas colorir tua pele com a minha
Teu cabelo com o meu
E adormecer no mesmo eclipse
Sobrepor-se em corpo, pernas e asas.
Desfazer-se em morte viva
Reviver a noite em brasas
Como se ninguém visse
Como se ninguém pudesse
Ser um instante do seu
Apenas eu.
Apenas eu.



Kate Polladsky
200º

Ducentésimo em diante
Você estará ausente
Não sei que bem fará
Ou para quem será este presente
Mas nesse instante
Não trará nada que eu já não tenha.
Nada que eu já não tenha deixado ir
Das milhares de vezes que mencionei-te
Poucas vezes criei significado
Não é para se ficar descontente
Deixar-te hei calado
Inócuo e vazio
Já há muito tempo distante
Tal como houve primeiro amor
Chegará a centésima dor
Nada mais por um fio
Que despenque tudo de antes
Nenhuma gota amarga
Irá me criar enchente
Ducentésimo em diante
Eu rio


Kate Polladsky

Friday, August 15, 2008

A CRIAÇÃO

Não faço nada de grandioso
Apenas descrio
Apenas escrevo
Esse mesmo nada que escraviza
Liberta
Tal como seria se criasse
E ainda assim se o fizesse
Não seria algo grandioso
Apenas uma discrição da descriação
Ou talvez uma descriação mal criada
A criação



Kate Polladsky

Thursday, August 14, 2008

Ser tua cura de tarja preta
Que nem fazendo esforço tu controlas
Ser teu dicionário de palavras chulas
Quando tua raiva não tiver saída
Ser tua pobreza, tua recaída
Quem te faz morrer de pedir esmolas
Serei quem sou e ainda!
Um ser sem sobras



Kate Polladsky
MESMO

E se eu me reinvento?
Enquanto retrocedo
Ou retorço um progresso
Pouco me importa
O que eu penso.
Pensar é uma derrota
Sem o intento.
Vou criando mais de mim
Desfazendo-me assim.
Não há nada que eu possa fazer
E quer saber, eu não lamento.
Sou muda o tempo todo
Só mudo o que vou dizendo.
Aproveito pra me perder
Um alvoroço pra me prender
A qualquer coisa comum
A qualquer custo
A qualquer um
Nada muito qualquer
Não são pra todos
O melhor rótulo de rum
O mesmo gosto forte tem todos
O mesmo mal-estar
Mas o mesmo de tudo é um fardo
Que já estou farta de carregar.


Kate Polladsky




Tuesday, August 12, 2008













Amisterdana

Todas querem ser
Todas as que não são
Pode até ser
Um lugar tão seu
Amisterdana
Consagrada
E profana
O teu feito
Teu efeito

Em nua análise
Catalisando-a
Sana
Femea
Atenta
Insana
E como cualqueruma
Humana
Todas querem ter
Para o mix ter dono
Híbrida de si
Todas as que nem tão
Amisterdanas



Kate Polladsky
CORRE DOR

Fim do corredor
Perdi-me no rim
Do amor, da dor
Estranhei a distância
Estreitou-se a ânsia
De te ter perto de mim
No início era claro
Hoje é comum
O que era raro
E a lâmpada se apagou
No fio do corrimão
O feixe de luz então
Virou silhueta
Uma penumbra
De tempos em tempos
Na ampulheta
Um vislumbre
E todo esse sentimento
Sem cor
Eu percebi quando me vi
Olhando-te no fim
Do corredor




Kate Polladsky
Juro que queria tocar as suas células cantantes
Expressivas e estridentes
Anexar à minha identidade perdida uma nova linhagem de valores e favores
De mim para o que sou e como me sinto quando você se revela
Juro que nas ruas os outros seriam outra história
E sei que jogariam suas ideologias e julgamentos sem leveza
Como cartas na mesa de pôquer, como pedras sem saberem o porquê.
Eu não ligo para todas essas pobrezas de alma e essa geração de mal dizer.
Juro que abraçaria sua natureza e me doaria para as dores do mundo
Do seu mundo, do seu muro de liberdade.
A minha vida vibra na confusão dos meus problemas E vibra-se de você.
Identifica-se e se aloja como bala no peito
Como se fosse tarde demais
E pudesse subornar o depois, com toda ética sentimentalista e carnal possível.
Juro que se por meio dos meus sentidos pudesse te materializar
Não teria qualquer martírio o amor recém descoberto
Que já está juramentado de fim.
Sem que eu pudesse fazer qualquer coisa
Exceto quebrar os juramentos que fiz dentro de mim.


Kate Polladsky

Monday, August 11, 2008

O meu medo desdiz. Isto é fato. É nada tão construtivo, quanto parece ser o risco sobre o papel. Nada me cala, nem o meu medo. Porém, como já disse, de que me vale tal empenho, interrogo. Interfiro. Inter-fico. Confusa.
Um triz muda muita coisa. Muda tudo. É sempre bom estar por um triz, quando um calendário é só um calendário. Quando um dia, depois o outro, depois o seguinte; nenhuns deles se tornam lendários. Tornam-se falsos cognatos de uma vida plena. Os dias.
Meu medo é excelente confidente. É um vácuo da gaveta, de madeira nobre. Sem trancas, apenas discreta. Medo esse que tem uma fome voraz. Digere tudo o que nele jogo, insatisfeitas suas enzimas ardem por mais.
O medo quando adormece o corpo estranha. De tão incorporado, já não é corpo estranho. Mas corpo entranho. O medo.
Cutuca-me os calafrios na pele, a platéia emerge. E é o medo então que surge como patrão frio e autoritário, delega o que quer, se senta ao alto e observa. De espírito mecanístico, não sei se se classifica como erro, como agravo, ou como agrado.

Medo que é medo, teme perder sua natureza. Teme por essa vertigem.
Por qualquer coisa que lhe provoque coragem, de perder-se da origem.



Kate Polladsky

Thursday, August 07, 2008

SACRIFÍCIO

Um pingo do poço
Viu-me tropeçar
E os dedos dos ossos
Não puderam segurar
Meu esboço
Que caía
E ela ria
Ela ria
Diante do riacho
Onde
Marchavam peixes
Tão traíras
Riscando a película
Da água
Em preto fosco
Era macio
Mas eu morria
E não fazia
Nenhum esforço
Despia-me
Da pelagem viva
Que me continha
Sem descompasso
Nem alvoroço
Embaraçava
Minhas pernas bambas
Nos contornos daquele dia
Salivava pelas beiras
Ao dizer que já sabia
Gotejava em muitas réplicas:
E ela ria
Ela ria
Escorria por meu pescoço
A vida em movimento brusco
Despejava-me ainda moço
Ao sublimar outro maço
E no subliminar precipício
O fim que tanto busco
Eis aqui meu sacrifício
Juntar-me hei
A um pingo no poço




Kate Polladsky
CONTEXTO

Não sou aquela coisa inocente,
Dependente e perfeita
Que morre
Sou aquela coisa displicente,
Decadente,
Que se espreita
E morde


Kate Polladsky

Wednesday, August 06, 2008

Despedida

Melhor que eu me despeça
Que eu me afaste e me aqueça
Melhor só te observar
E te levar na cabeça
Depois para que volte e te ofereça
Alguma coisa nova, tênue
Alguma coisa que não tenhas
Melhor que eu não te peça
Para que tu me esqueças
Pois sei que assim farias
Na falta do que fazer
Dirias
Que não foi a intenção
Mas a falta de alguém
Por perto
E se perder na confusão dos dias
Deu certo
Eu pensava
Que se quebrassem meu coração
Montarias peça por peça
Mas de certo, em pedaços
Não há amor que impeça
A liberdade de te perder
E para que não tenha que ver
Tudo isso de perto
É melhor que eu me despeça


Kate Polladsky
Você que implica
Me explica
Por que fica procurando me encontrar?
Só pra me apresentar à dor
Se situa
Não sei se é tua
Esta flor de Martinica
Nem sei se isso
Ao amor indica
Você é única
Então por que
Arranhar o violão
Com os dedos sujos de tinta
Pára e canta essa canção
Aquele que eu gravei na fita
E até hoje finge que não gosta
Ela é só uma amostra
De quando a vida imita o mágico
E agente senta
Esperando que algo desapareça
Sei que se não fosse mágica
Seria trágico
Então, não me deixe ir
Pra esperança renascer
Eu quero ver você rir
Até que passe o rio
Pelos seus olhos
Pra que eu possa enxugar a margem
Ver quando aquele brilho surge
E se confunde com a miragem
Você que implica
Não sabe que graça teu rosto fica
Quando erra na maquiagem
E assim se irrita
Espalhando todo o batom na cara
Então pára
Pára de dizer bobagem...


Kate Polladsky
As vezes eu me deixo
Sentir o gosto da tua ausência
Me permito a saudade
E o amor primeiro
Pode até ser verdade
Que eu não te escute
Mas veja,
O quanto o silêncio discute
Sem bocas, nem brigas
Resolve tudo, dá todo o sentido
E depois denuncia-nos
Como marginais
Rasgando a noite
De toda a sociedade
Descobrindo um ao outro
E cobrindo um ao outro
No frio, no fio de algodão
As vezes eu me deixo
Simplesmente porque
De você não abro mão
E você diz que não te amo
Pode até ser verdade
Pois sinto que te vivo
E a saudade de antes
Deve vir de minha morte
Passou-me na cara
Que não sei viver
E me pergunto
A que se deve essa autoridade
Mandando-me ao inferno
Deformando meus sentimentos
Desmerecendo minha existência
E você diz que não te amo
Que não sinto saudades
Ou...
Sou eu que não sei viver?
Pode até ser verdade...



Kate Polladsky

Tuesday, August 05, 2008

Céu da pátria nesse instante

Qual é o teu problema?
O quê tu não encontras?
O país é uma afronta
Tem pobre logo em frente
Te aborda e te rouba
Pra garantir o de hoje
O que te importa?
O que tu ganha?
Mas a criatura já deu cria
Seu descanso sequer tem fronha
Por que te espantas?
Por que te espantas?
Empacota mais um
Quanta carne come um tiro?
Manda a conta
Manda a conta
E solta os leões
Deixa correr solto
Pobre do rico que topa
Mostra
A tropa atrás do preto
Tá escurecendo mais cedo
Aqui perto
Com certeza não fui eu
Que to mangando do tempo
Qual é a tua raça?
Qual é a tua praça?
Aqui tu não pisa
No território da massa
De um lado o pão tá fresco
Do outro, largado às traças
Há uma cova no peito
Do desgraçado
Não é erro de cálculo
Não é mácula
Não há corda no pescoço
Dos tiranos
Só gravatas
Vão tirando a minha fé
Vou andando em marcha ré
Arrastando multidões
Assinando mil papéis
Pra soluções em fila dupla
Sustentando os padrões
E desmanchando a construção
Mea culpa?
Estou de corpo presente
Mas põem o corpo de fora
Por acaso é um fantoche?
Quem me representa agora?




Kate Polladsky